segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Em 10 anos, governo paulista gastou R$ 609 milhões com cartão corporativo

Milton Júnior - Do Contas Abertas 14/02/2011

O cartão de pagamentos do governo paulista fechou a fatura do ano passado em R$ 32,8 milhões, menor valor desde 2002. Nos últimos dez anos, no entanto, os gastos com o cartão já atingiram R$ 609 milhões em São Paulo. O valor é 70% superior ao registrado pelo Executivo federal no mesmo período – R$ 357,6 milhões. Em geral, o cartão do governo de São Paulo é usado para cobrir gastos “decorrentes de despesa extraordinária e urgente, cuja realização não permita delongas”.

Dos 25 órgãos estaduais que fizeram uso do cartão de pagamentos no ano passado, 23 registraram redução de gastos na comparação com 2009. Apenas a Assembleia Legislativa, que passou de R$ 129,5 mil para R$ 144,2 mil, e a Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude, com acréscimo de 170%, registraram aumento nas despesas.

No ano passado, quem liderou o ranking foi a Secretária de Saúde do estado, que desembolsou o total de R$ 12,3 milhões. O valor é quase três vezes o que o Ministério da Saúde e unidades vinculadas, por exemplo, utilizaram com o cartão corporativo do governo federal no mesmo ano. Em segundo lugar aparece a Secretaria de Segurança Pública, com quase R$ 10 milhões desembolsados no período. para ver o quadro por órgão.

A regulamentação estadual prevê 39 tipos diferentes de classificação de despesas. Pelo menos nos últimos dois anos, no entanto, 25% das despesas se concentraram em apenas duas rubricas: “outros materiais de consumo” e “despesas miúdas e de pronto pagamento”. Nesta última, estão incluídos gastos com selos postais, telegramas, material e serviços de limpeza e higiene, lavagem de roupa, café e lanches, por exemplo. Nela também podem ser adicionadas despesas com encadernações, artigos farmacêuticos ou de laboratório para uso ou consumo próximo ou imediato, além de qualquer outra conta de pequeno vulto, desde que devidamente justificada.

A “manutenção de viaturas pelo regime de adiantamento”, que consiste na entrega do valor ao servidor sem a necessidade do processo normal de aplicação, também aparece entre as descrições mais utilizadas pelos portadores do cartão. Entre 2009 e 2010, cerca de R$ 10,5 milhões foram gastos com esta finalidade. Para suprimentos, manutenção e serviços de informática, quase R$ 8,6 milhões foram utilizados na temporada.

Queda de 70%

A partir de 2008, as despesas com o cartão despencaram. No início daquele ano, o então governador de São Paulo, José Serra (PSDB), determinou a suspensão dos saques com os cartões de pagamento do governo, o que reduziu as despesas em 70%, se comparados os gastos de 2010 com os de 2007, quando foram desembolsados mais de R$ 100 milhões.

Nesse período, explica a assessoria da Secretaria de Fazenda, embasado em dispositivo legal, a opção de saque, pagamento de diárias e ajuda de custo era realizada por meio do cartão de pagamento de despesas. “Por decisão governamental, o saque não foi mais permitido e as despesas com diárias e ajuda de custo passaram a ser realizadas pelo processo normal de aplicação, sempre precedido de empenho em dotação própria, medidas essas que contribuíram com a redução dos gastos realizados pelo regime de adiantamento”, afirma.

Atualmente existem 4.454 cartões de pagamento de despesa distribuídos pelo governo paulista, quantidade que representa apenas 10% da quantidade registrada em 2007. Dentre os aperfeiçoamentos realizados em 2008 e 2009, a Sefaz destaca ainda a limitação dos gastos de despesa miúda em até R$ 100 por tipo de aquisição de bem ou serviço e R$ 200 para a Secretaria da Educação. Além disso, nenhuma aquisição poderá ultrapassar o valor de R$ 8 mil.

Todos os dados citados na matéria foram extraídos do portal de transparência do governo estadual, o “Prestando Contas”. O portal permite acesso à lista de fornecedores, com informações sobre a data da operação, órgão que efetuou a despesa e o valor. Ao contrário do governo federal, no entanto, não em possível conhecer os portadores dos cartões, nem sequer o valor acumulado por secretaria. Para isso, foi preciso tabular manualmente os dados. De acordo com a equipe da Sefaz, a atual formatação do portal foi proposta para “facilitar a usabilidade na consulta, mesmo por leigos, evitando várias aberturas de páginas”.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Peru reconhece Estado palestino sem definir fronteiras

Seg, 24 Jan, 06h39

LIMA (Reuters) - O Peru anunciou na segunda-feira que reconheceu oficialmente o Estado palestino como nação livre e soberana, em linha com as decisões de Brasil e Argentina, o que incomodou Israel.

As recentes decisões destes países latino-americanos, que também incluem Chile, Bolívia, Uruguai e Equador, alarmaram Israel, que as considera uma intromissão de nações que tradicionalmente não participaram do processo de paz no Oriente Médio.

O chanceler peruano, José Antonio García Belaunde, indicou à rádio RPP que seu país informava sobre "o reconhecimento que faz ao Estado palestino como Estado livre e soberano."

No entanto, o funcionário se absteve de precisar se o Peru reconhecia as fronteiras que tinha o Estado palestino antes da guerra dos Seis Dias em 1967.

Segundo analistas, os anúncios de alguns países latino-americanos poderiam implicar um apoio para as tentativas palestinas de conseguir entrar na Organização das Nações Unidas (ONU), caso fracasse a retomada das negociações de paz.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, confirmou que é uma de suas opções.

O Estado judeu disputa a reivindicação palestina sobre toda a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, terras capturadas na Guerra dos Seis Dias, em 1967. As negociações por um acordo de paz entre ambas partes foram interrompidas em várias ocasiões durante anos.

Por outro lado, o chanceler peruano confirmou a visita de Abbas a uma cúpula entre países árabes e sul-americanos, que será feita em fevereiro, em Lima.

(Reportagem de Patricia Vélez)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ONU debate estatuto para 'refugiados da fome'


GENEBRA (AFP) - Os 18 especialistas que devem propor novas normas na ONU sobre direitos humanos vão pedir na sexta-feira a criação de um estatuto para proteger os "refugiados da fome", indica um documento elaborado em Genebra, ao qual a AFP teve acesso nesta quinta-feira.

"Pedimos que o Conselho de Direitos Humanos da ONU admita o direito à não expulsão provisória dos países de recepção daqueles que fogem da fome em consequência de guerras ou catástrofes naturais, até que desapareçam as condições que os obrigaram a abandonar seus países de origem", explicou à AFP o suíço Jean Ziegler, um dos 18 especialistas que redigiu o documento.

"Não solicitamos algo equivalente ao direito de asilo, que é um direito absoluto reconhecido para aqueles que fogem da perseguição política, racial ou religiosa, e sim o direito temporário para que uma pessoa seja aceita a residir em um país enquanto durar a causa que a obrigou a abandonar o lugar onde vivia", disse Zigler.

"Queremos que a ONU estabeleça o direito à não expulsão temporária destas pessoas, que não são reconhecidas pela Convenção para os Refugiados, que exige a existência de motivos de perseguição políticos, raciais ou religiosos para que tenham abrigo em outros países", afirmou Ziegler, integrante do Comitê Assessor do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

"Isto afeta dezenas de milhares de pessoas no mundo, e na África há três rotas de fuga para estes refugiados da fome, que hoje fogem, por exemplo, da seca e da fome no Níger, seja via Senegal ou Mauritânia, para alcançar as Ilhas Canárias, ou através da Líbia e Tunísia para chegar à Itália ou cruzando o Mar Vermelho da Somália ao Iêmen", detalha Ziegler.

"Observamos um massacre cotidiano: quase um bilhão de pessoas são mal alimentadas no mundo, das quais 37.000 falecem diariamente. Uma criança menor de 10 anos morre de fome a cada três segundos. O direito à alimentação é o direito humano mais cinicamente violado atualmente", resume.

"O Programa Mundial de Alimentos (PMA) elabora a cada três meses o mapa das regiões do planeta onde há fome e, enquanto tal situação não for resolvida, a pessoa que escapou do massacre deve poder permanecer temporariamente em um país de asilo", conclui Ziegler.

A crise financeira fez com que os países ricos reduzissem consideravelmente a verba destinada para manter o PMA.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Sul do Sudão encerra votação por independência


Sáb, 15 Jan, 03h47 - Por Jeremy Clarke

JUBA, Sudão (Reuters) - Os locais de votação do Sul do Sudão fecharam as portas no sábado, após um referendo de uma semana para decidir a independência do Norte, que poderá dar fim a um ciclo vicioso da guerra civil, com a criação do mais novo Estado do mundo.

O ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, liderando uma missão de observação do referendo, disse que a participação pode ter chegado a 90 por cento e que parece provável que o sul tenha votado pela independência.

Membros das mesas de votação, exaustos, receberam os eleitores retardatários do último dia, na capital do Sul, Juba. Alguns funcionários estavam tão cansados que dormiam nas empoeiradas seções de votação.

"Eu me sinto aliviado, já que lutamos durante 21 anos por isto", disse o sulista Ayen Deng. "Estamos aguardando os resultados oficiais, mas vamos comemorar esta noite."

Os resultados finais deverão ser divulgados no máximo em 15 de fevereiro, mas poderão ser anunciados logo no início do mês que vem. "É claro que haverá independência, até sentimos o cheiro", disse Santino Riek.

O referendo faz parte do acordo de paz de 2005, que acabou com décadas de guerra civil entre o Norte muçulmano e o Sul, onde a maioria é fiel ao cristianismo ou a crenças tradicionais.

Os membros do governo do Norte parecem estar resignados a perder o Sul, que é produtor de petróleo e representa um quarto do território do país, aliviando temores de um ressurgimento do conflito interno.

domingo, 20 de junho de 2010

Adeus à Turquia ou a bem x mal?

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
Folha de São Paulo, 20 de junho 2010


EUA veem mundo dividido entre amigos e inimigos; é uma visão distorcida, com cada vez menos crédito

O OCIDENTE ESTÁ preocupado com a Turquia. Seus porta-vozes temem havê-la "perdido" desde que seu primeiro-ministro Recep Tayyp Erdogan se associou ao presidente Lula na proposta de intermediação entre o Ocidente e o Irã, e, em seguida, reagiu com determinação contra a interceptação violenta por parte de Israel de um barco com sua bandeira transportando manifestantes contra o bloqueio de Gaza.
A Turquia é o país mais desenvolvido do Oriente Médio. Foi um firme aliado dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, e tinha o apoio norte-americano para ser admitido na União Europeia.
Entretanto, já em 2003, quando os Estados Unidos pediram autorização para que suas tropas passassem pela Turquia para invadir o Iraque, o Parlamento turco a recusou.
O que estará havendo? Os mais apressados e os bem-pensantes lembram que o partido no governo desde 2002 é um partido islâmico, ainda que moderado e democrático, e concluem que a Turquia está mudando de "eixo" e se aliando ao "inimigo islâmico".
O primeiro-ministro e todas as autoridades turcas naturalmente rejeitam a interpretação. Erdogan afirma que apenas se inquietam "aqueles que são incapazes de compreender o novo papel da Turquia e sua política externa multilateral". Ou, em outras palavras, primeiro, é preciso saber se existe um eixo do bem e outro "do mal" como afirmou o ex-presidente George W. Bush.
Essa é a questão que países de renda média, como é o caso do Brasil e da Turquia, ou também da Índia e da Argentina, rejeitam ao elaborar sua política externa e adotar uma política multilateral.
No tempo da Guerra Fria estávamos diante de dois imperialismos, mas havia uma ameaça à sobrevivência do capitalismo e da democracia que não podia ser ignorada. Hoje, não há qualquer ameaça ao capitalismo ou à democracia. E ninguém personifica o bem ou o mal.
O mundo está dividido em países ricos nacionalistas, países de renda média nacionalistas em diversos graus, e países pobres que ainda precisam realizar sua revolução capitalista ou se modernizar.
Países nacionalistas são aqueles capazes de defender seus interesses nas arenas internacionais ao mesmo tempo em que cooperam com os demais.
Para os países de renda média não existem razões para se aliarem aos países em ricos. Pelo contrário, dado o fato de que países ricos são imperialistas mesmo sem querer, pelo simples fato de serem mais ricos e poderosos, os países de renda média precisam tomar cuidado para não se tornarem deles dependentes. A experiência mostra que só com independência um país se desenvolve plenamente.
A desastrosa experiência do México é o último exemplo dos males da dependência. Depois que se associou aos Estados Unidos e ao Canadá, o México viu sua economia quase estagnar e a corrupção e a droga tomarem conta da própria política do país.
Os Estados Unidos e alguns de seus aliados europeus ainda continuam a ver o mundo dividido entre amigos e inimigos, entre o bem e o mal. E a buscar apoio para suas políticas identificando como inimigos os países nacionalistas de renda média -a China, a Rússia, o Irã, e agora, quem sabe, a Turquia. Essa é uma visão distorcida que merece cada vez menos crédito.

sábado, 5 de junho de 2010

O fim do monopolio diplomatico das grandes potencias

Do Valor

Os riscos da governança global

Por Assis Moreira, de Paris
04/06/2010

Há dois anos, o National Intelligence Council (NIC) dos EUA publicou o relatório "Tendências Globais 2025", incluindo cenário no qual o Brasil atua como mediador em situações de crise no Oriente Médio e na Ásia para "ajudar a reconstituir o tecido internacional", num desempenho diplomático "que os EUA não podiam igualar naquelas circunstâncias". A realidade chegou antes do que imaginava o centro de estudos dos serviços de inteligência americano. O Brasil e a Turquia, ao negociarem no Irã acordo sobre a questão nuclear, irromperam no clube dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, espécie de diretório político do planeta, e escancararam as insuficiências da velha governança mundial, nascida após a Segunda Guerra.

>O Brasil é um ator incontornável nas negociações comerciais e de combate à mudança climática, por exemplo. O país não é suficiente para fechar um acordo, mas sem ele tampouco há decisão. Na parte política, sua influência é mais limitada. É o único dos Bric que não tem poder nuclear, por exemplo, e é obrigado a jogar com o "soft power", o poder que nasce do exemplo, da liderança moral e cultural.

O acordo com Teerã despertou a atenção internacional por ser a primeira vez que atores médios têm ação em tema estratégico, de proliferação nuclear. Não produziu todo o efeito, como ficou claro na reação dos EUA. Mas foi recebido na Europa, pelo menos, como o primeiro ensaio da nova época que será este século, na avaliação de Thierry de Montbrial, diretor do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri). Ou como a "prefiguração do fim do monopólio político das grandes potências", conforme outro analista, Bernard Guetta.
Reuters
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"A crise econômica foi um divisor de águas da história e vemos com clareza que o mundo está se configurando de maneira diferente", observa Felipe González, ex-presidente espanhol

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu uma visibilidade maior à política externa por seu carisma e sua história pessoal. A descoberta do pré-sal aumentou a importância econômica e estratégica do país, assim como a aceleração do crescimento econômico, o impacto limitado da crise financeira, a redução da pobreza e da desigualdade. O Brasil é um dos celeiros alimentares do mundo, tem uma das últimas fronteiras agrícolas inexploradas e boa parte das reservas de água doce do planeta.

Apoiado em tudo isso, Lula recusa que novos atores na cena global sejam considerados "intrusos" pelo "clube" baseado na geopolítica de 1945, quando Roosevelt, Stalin e Churchill decidiam o destino do mundo em torno de "uma garrafa de uísque".

"Brasil, China, Índia vão ter um papel diplomático mais e mais importante e se envolver em questões extremamente sensíveis nas quais as grandes potências fracassaram, e as consequências disso serão consideráveis em 10 ou 15 anos", diz Montbrial.
Rogério Palatta/Valor
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"O longo período de dominação ocidental, encorajada e acelerada pelos próprios erros e comportamento irresponsável, está acabando", diz Dominique Moisi, de Harvard

Ele vê o risco de antigas fraturas Leste-Oeste e Norte-Sul serem substituídas progressivamente por uma nova fratura, apenas perceptível, entre um Oeste mais e mais defensivo e países emergentes como o Brasil e a China reivindicando seu espaço na governança global. "Estamos engajados numa corrida contra o relógio", afirma. "Na falta de uma governança adequada, a mundialização irá diretamente contra o muro."

A governança global emergiu progressivamente a partir dos entendimentos restritos no Congresso de Viena (em 1815, que redesenhou o mapa político da Europa depois da derrota da França napoleônica); em Paris (em 1856, com os princípios do direito marítimo); Berlim (em 1884, com a partilha imperial da África e outras disposições colonialistas); Versalhes (em 1919, imposição de reparações à Alemanha e criação de novos Estados na Europa); e a conferência de San Francisco (em 1945, que criou a ONU).
Bloomberg
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A "boa notícia", afirma Lamy, diretor-geral da OMC, é que a pior crise econômica e financeira dos últimos tempos acelera a nova arquitetura da governança global

Como diz o diplomata e sociólogo Paulo Roberto de Almeida, o conceito de governança (e não governo) global tem a ver com a gestão partilhada de problemas comuns, como segurança e estabilidade (o controle de Estados belicosos e de movimentos terroristas), com o crescimento sustentado de países pobres (Estados falidos podem exportar a sua miséria) e com a preservação ambiental (desequilíbrios provocados pelo homem têm impacto profundo no futuro das sociedades). As crises resultantes da má gestão financeira também podem ter efeitos globais desastrosos, como a iniciada nos EUA em 2008, que afetou o mundo todo.

Na prática, porém, as autoridades nacionais cuidam dos próprios problemas e adotam políticas que empurram as crises para os demais. "É o que ocorre com práticas como o protecionismo dos ricos, a recusa de ceder espaço a novos competidores, a incapacidade ou a falta de vontade de empreender ações corretivas nos planos ambiental, criminal (tráfico de drogas ou de pessoas, por exemplo) e em outras áreas com possível impacto extrafronteiras", diz Almeida.

Analistas concordam que grandes reformas da governança mundial só ocorrem mesmo como resultado de guerras globais ou outras grandes turbulências culturais ou desastres humanos. A agenda internacional está pesada, pelos fracassos da negociação comercial conhecida como Rodada Doha, pelo impasse no acordo do clima, pela ausência de progressos práticos no G-20 financeiro. Tudo isso reflete a mediocridade das lideranças políticas com intensos lobbies internos que impedem reformas. E não apenas na Europa. Quanto ao Brasil, dizem que seus problemas não têm a ver essencialmente com o sistema internacional, todos são "made in Brazil".

A "boa notícia", afirma Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), é que a pior crise econômica e financeira dos últimos tempos acelera a nova arquitetura da governança global, na qual ele vê um "triângulo de coerência". De um lado, o G-20, grupo das 20 maiores nações representando mais de 80% da produção mundial, dá a liderança política. De outro, as organizações internacionais fornecem a especialização, negociam as regras, políticas ou programas. E o terceiro lado do triângulo é a ONU, como foro para "accountability" - prestar contas pelo que cada um faz.

No longo prazo, tanto o G-20, que se torna uma espécie de diretório econômico do planeta, como as agências internacionais, vão reportar-se ao "parlamento" das Nações Unidas. Já a reforma do Conselho de Segurança da ONU continua no impasse. A França, sem peso decisivo, acena com nova proposta, prevendo a criação de um status intermediário entre membros permanentes e não permanentes, com os novos membros sendo designados por dez anos sem direito de veto.

"A crise econômica foi um divisor de águas da história e vemos com clareza que o mundo está se configurando de maneira diferente", observa Felipe González, ex-presidente espanhol. Dominique Moisi, professor visitante da Universidade de Harvard, completa: "O longo período de dominação ocidental, encorajada e acelerada pelos próprios erros e comportamento irresponsável, está acabando".

Para Alfredo Valladão, professor do Instituto de Ciência Política de Paris, a força dos emergentes vem da globalização, da fragmentação das cadeias produtivas, de um sistema financeiro que deu crédito barato e abundante para investir em todo lugar. Nota que os EUA e a União Europeia (UE) representam dois terços do consumo final mundial e sem esse consumo e sem crédito "não tem desenvolvimento na China nem em lugar nenhum".

O Deutsche Bank estima que as economias emergentes poderão ter um crescimento acumulado de 30% até 2012, comparado a apenas 5% nos países desenvolvidos - o que vai se refletir na relação de forças.

Na média, as economias emergentes poderão crescer 4% a mais por ano do que as economias industrializadas nos próximos três a cinco anos, conforme o estudo intitulado "O Novo Mundo", assinado pela economista Maria Laura Lanzeni.

Os emergentes representarão 40% da produção mundial dentro de três anos, num salto enorme em comparação aos 25% de 2005. Segundo o Fórum Mundial de Economia, a desintegração da União Soviética, o despertar da China como usina do mundo e financiadora dos déficits americanos e as reformas econômicas na Índia representaram a inclusão de 1 bilhão de pessoas na força global de trabalho. O comércio mundial triplicou e cresce duas vezes mais que a produção, com os países em desenvolvimento representando 38% em comparação aos 23% de há 20 anos.

Como resultado do rápido crescimento e integração, as economias emergentes incluíram 400 milhões de consumidores de classe média na economia mundial. O aumento é de 70 milhões por ano, dos quais 20 milhões fora da China e Índia.

O mercado de capitais se globalizou. A média diária de transações cambiais supera US$ 4 trilhões por dia. As sociedades estão mais interconectadas pelo avanço tecnológico. O custo de três minutos de ligação telefônica dos EUA para a França caiu de US$ 4,14 em 1988 para US$ 0,06. A internet é utilizada por um quarto da populacao mundial de 6,7 bilhões de pessoas. Brasil, Rússia, Índia e China sozinhos têm mais de 1,3 bilhão de utilizadores de telefones celulares.

Para Valladão, Brasil, China e Índia querem ter o status de potência, mas sem aceitam a responsabilidade. "Como dependem da globalização, têm que defender a globalização. A maioria acha que está ótimo. Quem está com medo da globalização são os europeus. Mas têm que assumir responsabilidade para continuar. É aí que ficam com medo, porque se assumem responsabilidade perdem soberania."

"É fundamental fazer a diferença sobre o que era potência emergente no fim do século XIX e XX, quando na Alemanha e nos próprios EUA o poder econômico era nacional e controlado pelos governos nacionais", afirma. "Os países emergiam contra os outros ou paralelamente aos outros. Hoje, os que estão emergindo estão dentro de um sistema globalizado, dependem dos outros, não vão contra os outros. Podem até pensar que querem ir. Como estão emergindo agora, querem ser vistos como multipolares. Só que, para ser considerados assim, têm que defender esse sistema."

Já os EUA, que fazem metade das despesas militares do mundo, querem continuar a ser "o sistema". Mas seu papel de estabilizador final é posto em dúvida: o xerife é relutante e o mundo tem suspeitas. Barack Obama procura exercer nova liderança, mas quem decide mesmo é o Congresso. E este reflete o grande temor americano com perda de competitividade, queda de produtividade, transformação de economia industrial em economia de servicos. O lento declínio é doloroso. As figuras centristas do Congresso estão desaparecendo, dando lugar a parlamentares radicais e histriônicos que defendem posições particulares e ignoram soluções globais.

Ou seja, quando mais se precisa da potência para posições globais, os EUA estão cada vez mais locais. Os EUA e a UE sabem que têm que deixar espaço para os emergentes. Mas isso é menos doloroso para os europeus, que, a cada vez que se reúnem, têm de buscar compromissos. Já a administração Obama fala em multilateralismo, mas "desde que Washington convoque, distribua os papéis, decida", como nota o embaixador Rubens Ricupero. "Quando chega o momento em que o Brasil acha que pode evoluir nesse processo, os EUA não aceitam. Mas eles [EUA] estão num beco sem saída."

A China já tem comportamento de potência, considerando os grupos e foros internacionais apenas instrumento. Quer se aproveitar de uma soberania substancial. A Índia está mais focada no regional, com seu status nuclear consolidado pelo pacto com os EUA.

Para outros analistas, Brasil, China e Índia se movem pelos mesmos critérios que se moviam os EUA e a UE, e não se pode esperar que sejam mais generosos do que foram as potências. Negociadores europeus dizem que, no G-20 financeiro, o Brasil sempre busca um maneira de encontrar solução. O país também assumiu responsabilidades no Haiti, comandando as operações de paz da ONU. E, quando assume responsabilidade, assume riscos. O que não pode é achar que não vai ser cobrado e dar trombadas, diz um experiente diplomata. Referindo-se à fricção com os EUA sobre o Irã, alerta que, quando se dá uma trombada, é preciso preparar-se para receber outra de volta no jogo duro das relações internacionais.

Além disso, nota Valladão, quando se sai pelo mundo, "é ingenuidade" achar que só vale a realpolitik e os valores não devem entrar nas relações internacionais. Ou seja, valores são também influentes em definir os interesses políticos. Estes não são definidos no vazio, estejamos ou não cientes disso.

Outro ponto é consolidar sua potência regional. Anthony Pereira, diretor do Instituto Brasil do King's College, da Universidade de Londres, fez uma palestra no Instituto Real de Defesa, da Inglaterra, em meio a certo ceticismo sobre sobre o acordo do Brasil e Irã e indagações sobre a falta de mediaçao brasileira em algumas tensões sul-americanas, como entre Venezuela e Colômbia ou Argentina e Uruguai. O incontestável, em todo caso, é que na conjuntura atual o Brasil só tem a avançar seu papel na cena internacional "com as cobranças para assumir mais responsabilidades".

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Obama divulga Estratégia Nacional de Segurança e tira o foco da guerra ao terror defendida por Bush

27/05 às 15h49 O GloboAgências Internacionais

RIO - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, apresentou nesta quinta-feira a Estratégia de Segurança Nacional de seu governo, que deixa para trás o foco do governo de seu antecessor, George W. Bush, na guerra ao terror, buscando preservar a liderança americana no mundo sem ignorar o crescimento de outras potências. No documento de 52 páginas o Brasil é citado como uma das nações com crescente influência no mundo, ao lado da África do Sul e da Indonésia, o que faz do país um dos "centros-chave", categoria que inclui China, Índia e Rússia.

Enquanto o documento assinado por George W. Bush em 2002 afirmava explicitamente que os EUA não permitiriam o crescimento de uma superpotência rival, a estratégia apresentada pelo presidente democrata declara que os EUA não enfrentam nenhum competidor militar real e destaca que o poder global está crescentemente difuso. "Para ter sucesso, devemos encarar o mundo da forma que ele é", diz o texto.

O principal autor do documento - divulgado nesta quinta-feira e exigido por lei a cada presidente dos EUA -, Ben Rhodes, assessor de Segurança Nacional, disse em uma entrevista que a tentativa de Obama de substituir o G8 por uma formação mais ampla, o G20, incluindo China, Índia e Brasil, reconhece essa realidade.

"O peso de um novo século não pode recair somente nos ombros dos Estados Unidos", diz a introdução da estratégia. "Na verdade, nossos adversários gostariam de ver os Estados Unidos perder sua força ao aumentar de maneira exagerada sua força".

Em uma menção às guerras mantidas pelos EUA no Afeganistão e no Iraque, Obama escreveu que uma américa "endurecida pela guerra" e "disciplinada por uma crise econômica devastadora" não pode manter combates tão extensos.

O texto afirma que apesar de o governo ter renovado o foco no Afeganistão e aumentado o número de investidas da CIA contra insurgentes no Paquistão, a estratégia de Obama rejeita o foco dado por Bush ao contraterrorismo como principal política de segurança. Os esforços na direção. Os esforços "em reação ao terrorismo são apenas um elemento e não podem definir o envolvimento dos Estados Unidos com o mundo", escreveu Obama.

Ao longo do texto, Obama deixa claro que seu conceito de segurança nacional é mais amplo que o de Bush, ao sustentar, por exemplo, que a redução do déficit do país é essencial para a manutenção de seu poder e influência. Ele enfatizou questões como economia, educação, mudanças climáticas, energia e ciência. "Nossa segurança nacional começa em casa", diz o a estratégia.

EUA buscarão 'múltiplos meios' para isolar Irã e Coreia do Norte se eles ignorarem responsabilidades internacionais

De acordo com a nova estratégia, os EUA buscarão "múltiplos meios" para isolar o Irã e a Coreia do Norte se eles ignorarem as responsabilidades internacionais em relação a seus programas nucleares. O documento afirma que Washington estava buscando um engajamento "sem ilusões" com o Irã, referindo-se à resposta, considerada desafiadora pela Casa Branca, da República Islâmica à tentativa diplomática de Obama feita anteriormente.

A estratégia de Obama pede ainda que a China "assuma um papel responsável de liderança" e promete "monitorar o programa de modernização militar e se preparar de acordo", afirmando que desentendimentos em relação a direitos humanos "não devem impedir cooperação em questões de interesse mútuo".

O documento expõe uma visão de "relacionamento estável, substantivo e multidimensional com a Rússia", mas promete "promover o Estado de Direito, um governo responsável e valores universais" dentro da Rússia e "apoiar a soberania e a integridade territorial dos vizinhos da Rússia". O texto reafirma ainda que os Estados Unidos estão "construindo uma parceria estratégica" com a Índia e "recebe com prazer a liderança do Brasil".